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Juína News

Hoje Sabado
07 de Dezembro de 2019




Soledad, a jovem argentina que se juntou a anarquistas na Itália e se matou após ser presa sob falsas acusações

Ela chegou à Itália quando tinha 23 anos e se apaixonou profundamente pelo anarquismo e por um companheiro de ideologia, em uma história de amor intensa e final trágico.

09 de Julho de 2019
- Fonte: BBC
A atriz Vera Spinetta interpretou Soledad no filme de Agustina Macri sobre a vida da jovem argentina  Foto: Foto: Divulgação

A atriz Vera Spinetta interpretou Soledad no filme de Agustina Macri sobre a vida da jovem argentina Foto: Foto: Divulgação

A história de María Soledad Rosas trata de paixão, política, abuso de autoridade, busca de identidade e de liberdade e morte precoce.
 
Nascida em Buenos Aires em 1974, a filha de uma família de classe média que a adorava tinha como passatempo preferido andar a cavalo e passeava com cães para ganhar dinheiro enquanto estudava.
 
Seus pais lhe deram uma passagem para a Europa como recompensa por ter concluído o curso de Administração de Hotelaria com boas notas, esperando que ela reconsiderasse sua decisão de morar com um namorado de que eles não gostavam. Foi nessa viagem que sua vida tomou um rumo dramático.
 
Ela chegou à Itália no verão de 1997. No outono, conheceu a liberdade, e, no inverno, o amor. Na primavera, foi presa e se transformou em heroína alguns dias depois. No verão de 1998, cometeu suicídio.
 
Uma 'vida urgente'
 
Não surpreendentemente, quase duas décadas depois, sua história cativou outra argentina, a cineasta Agustina Macri, filha do presidente argentino, Mauricio Macri.
 
Ela "conheceu" Soledad quando um amigo lhe emprestou a biografia Amor e Anarquia, a vida urgente de Soledad Rosas (2003), no qual o jornalista argentino Martin Caparrós reconstrói sua vida com base em cartas e diários, conversas com os pais e irmã e com italianos com quem ela passou duas semanas.
 
As palavras que iniciam o livro capturaram sua atenção: "Eu reconheço: a primeira coisa que me surpreendeu foi sua morte. Os diário a relatavam e diziam que havia sido por uma causa ou amor: nos últimos dias daquele século, as duas razões soavam estranhas". Ela leu a obra quase de uma só vez.
 
Assim que terminou, começou a escrever um roteiro e deu início ao processo que culminou no que é agora o premiado filme Soledad (2018), seu primeiro trabalho, estrelado pela atriz argentina Vera Spinetta. É uma história que "tem muitas camadas de amor, mas também de dor", diz Macri.
 
Por isso, propôs-se "ser respeitosa com Sole, com Baleno (o namorado dela), com a dor da família e com os anarquistas", embora os últimos tenham boicotado tanto o filme quanto o livro de Caparrós, que foi traduzido para o italiano por ocasião do lançamento de Soledad.
 
A história
 
Soledad deixou Buenos Aires com uma amiga um pouco mais velha do que ela, Silvia Gramático. Elas viajaram alguns dias pela Itália antes de chegarem a Turim.
 
"Por sorte ou azar - acho que por destino -, elas chegaram a um centro social de okupas italianos", diz Macri - o termo okupas se refere a membros de grupos anarquistas que se instalavam em um local desocupado sem o consentimento do proprietário.
 
Chamava-se o Asilo. Ao cruzar seu portão verde, Soledad encontrou um estilo de vida baseado em um sistema filosófico e uma teoria política cujas raízes remontam à Grécia antiga, mas que é moderno, desafiador, confuso, corajoso, improvável e atraente: o anarquismo.
 
Uma rotina diária em que "ninguém olha para você, ninguém controla você, ninguém pensa em julgar o que você faz", diz Caparrós, que também ficou no Asilo quando fazia pesquisas para seu livro. Mas isso não significa que se vivesse isolado ali.
 
"Todas as noites, no enorme pátio do Asilo, todos jantavam juntos o que alguns haviam preparado em jantares comunitários, a base da sua sociabilidade okupa e que eles ostentam como uma invenção italiana."
 
A diferença é que tudo isso acontecia sem planejamento. Preparar o jantar era uma decisão pessoal e espontânea: "Se houvesse turnos, teria de haver algum tipo de autoridade para que fossem respeitados", algo inaceitável, explicaram a Caparrós.
 
Soledad "era fascinada com o estilo de vida dessas pessoas", diz Macri. Ela escreveu em seu diário: "Estou aprendendo coisas novas o tempo todo. Sentia-me de um certo jeito e, em Buenos Aires, não conseguia entender o que era, e, agora, estou vivendo o que senti lá".
 
Quando Silvia propôs que continuassem a viagem, ela respondeu: "Como eu vou agora? Já aconteceu de você encontrar de repente seu lugar no mundo?".
 
Além disso, diz Macri, "ele conheceu Edoardo Massari, um anarquista italiano bastante ortodoxo, com quem começou a ter uma história de amor muito intensa".
 
Adeus ao Asilo
 
Em outubro, Soledad - que já era então conhecida como Sole - decidiu se mudar para um prédio que um grupo de okupas havia abandonado que foi o necrotério do manicômio de Collegno, um município com cerca de 50 mil habitantes da Província de Turim.
 
Era um espaço sinistro em que havia pouco mais do que paredes e uma mesa de dissecação. Não havia nem luz nem água, e, no inverno, ficava terrivelmente frio. Havia muito para ser feito ali, e Silvano Pelisserio e Edoardo Massari, este também conhecido como Baleno, estavam ali para isso.
 
Baleno havia passado quase dois anos na prisão, um isolamento que foi uma verdadeira provação, segundo Silvano. Ele era inventivo, capaz de fazer máquinas estranhas. Era generoso, magro, musculoso, não muito alto, nervoso. Ele se interessava por macrobiótica, ioga, plantas medicinais, curas alternativas. Era vegano e não comia açúcar ou sal.
 
Segundo sua mãe, Paola Massari, "ele sempre disse que não queria ter uma mulher, mas porque nunca havia encontrado uma que realmente lhe interessasse".
 
No entanto, em dezembro, quando um grupo do qual ele e Sole faziam parte foi para a Espanha para passar as duas últimas semanas de 1997. Embora tenham ido separadamente, voltaram juntos - e muito próximos um do outro.
 
"Meu filho e Soledad tiveram um relacionamento muito bonito. Eles se entendiam apenas pelo olhar", diz a mãe de Edoardo. Silvano Pelisserio conta que "eles andavam juntos o dia todo, faziam jejuns e votos de de silêncio - ficavam dias e dias sem falar, algo terrível para um italiano".
Em Collegno, o casal passou talvez os dias mais felizes de suas vidas, que foram abruptamente interrompidos.
 
A prisão
 
Em meados da década de 1980, a Comunidade Econômica Europeia (CEE) lançou um plano para conectar as principais capitais dos seus Estados-membros por meio de linhas de trens de alta velocidade (TAV).
 
O trecho entre a cidade francesa de Lyon e Turim teve de atravessar o Vale de Susa, nos Alpes italianos, onde, segundo seus críticos, teria um impacto desastroso ao meio ambiente e à saúde dos habitantes e não traria benefícios econômicos para a região.
 
Em 1996, a rejeição ao projeto começou a se expressar na forma de resistência direta com uma série de sabotagens contra a infraestrutura. Nos primeiros meses de 1998, após 16 ataques e sem nenhuma prisão de seus responsáveis, a incapacidade das autoridades de dar fim a esses ataques estava se tornando evidente perante a CEE e as empresas que investiram no TAV.
 
Então, em 5 de março, a Promotoria deu a ordem de revistar três casas habitadas por okupas em Turim. Três anarquistas foram presos: Soledad, Edoardo e Silvano.
 
O romance vivido por Soledad e suspenso pela ação de esquadrões especiais da polícia italiana "não durou mais do que dez semanas: 70 dias e 70 noites, no máximo - mas, no entanto, definiu sua vida", destaca Caparrós.
 
Sole, Baleno e Silvano foram acusados - sem provas conclusivas - de ecoterrorismo, associação subversiva e militância armada por meio de uma organização paramilitar chamada Luppi Griggi, ou Lobos Cinzas.
 
Separados por barras e paredes, eles só podiam se comunicar com palavras escritas em cartas e deram um abraço no dia que em que foram levados ao tribunal.
 
Na madrugada de 28 de março de 1998, 23 dias depois de ser preso, Baleno pegou o cobertor da cama de sua cela, o amarrou a uma extremidade das grades da cama no andar de cima e se enforcou.
 
As manifestações contra a prisão do trio entraram em erupção, com marchas massivas por justiça e punição para os responsáveis pela morte de Baleno.
 
'Tortura'
 
Da prisão, Sole escreveu um comunicado no qual apontou quem considerava ser os culpados: "Camaradas, a raiva me domina neste momento. Sempre pensei que todos são responsáveis ​​por suas ações, mas, desta vez, há culpados. (...) Aqueles que mataram Edo: o Estado, juízes, advogados, a imprensa, o TAV, a polícia, as leis, as regras e toda a sociedade de escravos que aceitam este sistema".
 
Também explicou como tudo que era precioso foi negado a eles na cadeia. "A prisão é um lugar de tortura física e mental, aqui não há absolutamente nada. Você não pode decidir a hora de se levantar, o que comer, nem com quem falar ou com quem se encontrar, ou a hora de ver o sol. Para tudo, é preciso para fazer um 'pedido', até para ler um livro. (...) É assim que eles te matam dia após dia, lenta mas certamente, para fazer você sentir mais dor. É por isso que Edo decidiu acabar abruptamente com essa dor infernal, pelo menos ele se permitiu ter um último gesto de liberdade mínima, para decidir por si mesmo quando acabar com essa tortura."
 
Ela disse que nem sequer lhe foi permitido viver sua dor. Foi colocada em isolamento preventivo, para evitar que cometesse suicídio, de modo que não deram cobertores para se cobrir, nem pôde ver ninguém ou receber informações.
 
"Eles não me deixam chorar em paz, eles não me deixam ter um último encontro com meu Baleno. Vinte e quatro horas por dia, um agente me vigia a cinco metros de distância."
Ela escreveu: "Depois do que aconteceu, os políticos do Partido Verde que vieram me dar seus pêsames e, para me tranquilizar, não lhe ocorreu nada melhor do que me dizer que 'agora tudo vai ser resolvido mais rápido, agora todo mundo vai acompanhar com mais atenção o processo, e eles logo lhe mandarão para prisão domiciliar'. Fiquei sem palavras, mas consegui perguntar a eles se era preciso a morte de uma pessoa para comover um pedaço de merda, neste caso, o juiz."
 
A força do destino
 
E, de fato, foi assim. Em maio, ela passou a ficar em prisão domiciliar até o julgamento e foi transferida para uma fazenda em Bene Vagienna, a 80km de Turim, onde recebeu visitas de seus amigos na Itália e de sua família na Argentina. Foi então que tomou uma decisão que ele fez seus companheiros posseiros a respeitarem mais ainda.
 
Ela poderia ter ido para Buenos Aires, como sua família lhe implorou ao oferecer os serviços de um advogado. Poderia ter alegado o que alguns pensavam: que ela se apaixonou pela pessoa errada, que ele fez uma lavagem cerebral nela, que o amor a fez se perder. Mas se recusou categoricamente e insistiu que não havia feito nada de errado. Optou por permanecer na Itália.
 
A prisão preventiva de Silvano e Soledad deveria terminar, segundo a lei italiana, em 5 de setembro de 1998, seis meses após serem detidos. Se até essa data a acusação não tivesse um caso suficientemente sólido, teria de libertá-los. Para evitar isso, em 6 de julho, uma segunda-feira, a Promotoria os acusou de um roubo e incêndio, pensando que seria mais fácil provar isso.
 
Na sexta-feira da mesma semana, uma dúzia de militantes contra o TAV de Susa chegou à casa de Bene Vaggena para organizar uma manifestação. Quatro deles ficaram para o jantar com outros quatro amigos do Asilo. Entre eles estava Ibrahim, que contou a Caparrós que Soledad e moradores do Asilo passaram a ocasião brincando, conversando e ouvindo música.
 
Por volta das 4h, ela foi dormir porque, com disse, estava "muito, muito cansada". Mais tarde, Ibrahim foi ao banheiro e a encontrou pendurada por um lençol amarrado ao cano do chuveiro.
 
A história se repetiu: como Soledad havia escrito, foi preciso "a morte de uma pessoa para comover" um juiz. Silvano foi para prisão domiciliar dez dias após sua morte. Ele ficou preso até o fim de 2002, quando a Justiça italiana reconheceu a inconsistência das provas apresentadas contra os três. Edoardo e Soledad também foram absolvidos.
 
"O sistema no qual estamos imersos é tão forte - especialmente a grande parte do mundo que vive em um sistema capitalista - que há sempre um momento em que o pequeno mundo que você cria com as leis anarquistas se choca com certos limites, e eu acho que foi isso que aconteceu com eles", diz Macri.
 
A cineasta diz que costumam questioná-la por que Soledad escolheu o que escolheu. Foi por suas convicções políticas ou por amor? "Eu, sinceramente, nunca me senti pronta para responder, e é por isso que o filme diz ao espectador: 'Você é livre para sentir e crer e tomar essa decisão, e tentar entendê-la como puder".
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